
encontrei um olhar triste. olhei para perceber de onde vinha a tristeza, mas era preciso ir bem lá ao fundo...não consegui perceber , armei-me em detetive e fui tirar satisfações com a alma,dizem que os olhos são o seu espelho, e se estavam tristes, alguma coisa ela teria para me dizer. pois é... mas quem diz que eu conseguia espreitar-lhes a alma?! não deixaram. não me quiseram levar por ali, com medo que eu encontrasse a roupa toda que estava acumulada no cesto...
passei-me! eu é que devia decidir essas coisas, eu é que era a única superpotência do corpo que podia comandar todos as partes... e eu estava cheia!
Lava-se a roupa suja no cesto da alma. Porque o cesto já está cheio, transborda cheiros, risos, desilusões, arrufos, paixões, regressos, surpresas, sexo, saudade, felicidade, medo, amargura, desgosto, maldade, injustiça, ferida, beijos na boca daqueles que não secam nunca de tão molhados que são, solidão, angústia, egoísmo, loucura, emoção, quilos a mais dos chapéus de chuva de chocolate que derretem em dias sem sol, dúvida, raiva, sentimento, mistério, traição, amizade, carinho, vício, tentação, filmes, livros, quadros sem riscos e com chaminés a deitar nuvens de fumo do almoço que a família feliz faz dentro da casa com telhado vermelho.
É difícil lavar a alma, mesmo com os melhores detergentes. Escrever é como pegar nesse cesto que junta e mistura tudo e voltar a tirar e separar tudo para, enfim, contemplar sensação a sensação, momento a momento, tocar-lhe, sentir novamente, lembrar do que é ou foi ou podia ter sido, para então arrumá-la limpinha. Uma a uma. Escrever aquilo que se sente na alma é tão tortuoso quanto senti-lo. Porque é tão difícil escrever sobre o que se sente quando não se sabe sequer o que se sente nem porquê. Ou não se quer sentir e sente-se ainda mais. Quando se tem medo de dizer alto o que o coração grita, berra, arranha, parte, devora, chora, encerra. Quem escreve sobre a alma atormenta-se. Mostra tudo. O que não quer porque a alma é nossa e não a vendemos ao diabo - ou até vendemos mas não queremos que ninguém saiba. Porque se vive tudo de novo e tudo outra vez. E como a alma também se enche de coisas boas, escrever é tanto mais ainda a pastilha anti-calcária da lavagem da roupa suja do cesto da alma - alivia, purga, devolve-nos o sorriso, a esperança. Escrever sobre o que é proibido falar pelas razões que a razão conhece mas às quais nunca foi apresentada formalmente. Porque é preciso lavar a alma. A alma tem de viver limpa. Porque não podes continuar a prometer-lhe o que não consegues fazer só porque a tua cabeça não deixa o teu coração em paz. Porque não podes continuar a ter medo de sentir e dar a mão quando te preocupas. Quando não podes esgotar-te na vida como se ela se fosse se não a fechasses bem numa caixinha e a abrisses só de vez em quando para te lembrares que existes.
Escrever é um tormento mas um sem medo atormentado, uma coragem de espicaçar o tempo e a vida e os outros e nós e tudo. Uma força que vem de ti se deixares a palavras correrem livres pelos caminhos verdes