
Do conhecimento que tenho de mim, esteve sempre presente um turbilhão de pensamentos, questões, idéias com as quais algumas vezes tive dificuldade em saber lidar.
Tinha cinco anos quando me apercebi, pela primeira vez, que existia.
Naquela tarde o meu avô, deitado no sofá, lia um livro de capas grossas e páginas intermináveis ao mesmo tempo em que eu fazia bonecos de plasticina dismórficos e coloridos no chão da sala. Mantinha-me em silencio porque sabia que se lhe interrompesse a leitura acabava por ir brincar sozinha para o quarto, assim, se ficasse em silêncio, continuava a brincar sozinha, mas com o aconchego da sua presença.
Subitamente dei por mim a cantar dentro da minha cabeça: Tumtum-piscatunga-tá—piscatunga-laribé—pisca-tunga-a- tinga...
Como não me lembrava do resto da musica perguntei-lhe:
-Como é o resto da música?
- Que música?- bocejou.
- A que estou a cantar dentro da minha cabeça.... Tumtum-piscatunga-tá—piscatunga-laribé—pisca-tunga-a- tinga... não ouves?
- Não...- disse, visivelmente desinteressado na conversa.
Levantei-me, aproximei a minha cara junto da dele, olhei-o nos olhos e voltei a cantar com muita força cá dentro: Tumtum-piscatunga-tá—piscatunga-laribé—pisca-tunga-a- tinga...!
- E agora? – perguntei impaciente.
Ele riu, afagou-me o cabelo e apertou-me a bochecha corada:
- Tu não estas a falar, estas a pensar! A isso chama-se pensamento!
- E tu não ouves porquê?
- Porque...ninguém pode ouvir o pensamento dos outros... Para que eu saiba o que estás a pensar tens de me contar...!
Anos mais tarde vim a comprovar que não era bem assim, que às vezes se consegue adivinhar o pensamento dos outros; mas nesse dia fiquei muito contente por saber que ninguém ouvia o que falava dentro da minha cabeça.
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